Para o multiartista e pesquisador Lucas Ururahy, a resposta está na música, na imagem e no encontro. O projeto estabelece um circuito de artes integradas que converte embarcações tradicionais de madeira em uma frota de esculturas sonoras interativas e dispositivos de audiovisual expandido de grande escala.
Atualmente com duas embarcações — Tocando o Barco 1 e Tocando o Barco 2 —, o projeto propõe o conceito de "transmutação da travessia": o trânsito físico e o esforço do trabalhador do mar transmutam-se em fluxo poético, sonoro e visual dentro dos espaços institucionais. Hibridizados com tambores, metais e tubos acústicos, os barcos de aproximadamente quatro metros perdem sua função utilitária original para transformarem-se em corpos-instrumentos de execução coletiva.
"O barco deixa de navegar sobre as águas para transitar pelas engrenagens urbanas e da arte. Ele se torna um convite à escuta e um dispositivo relacional."Lucas Ururahy
Sob a direção de Ururahy, uma "tripulação" de músicos e pesquisadores espalha-se ao redor da escultura central em dinâmica semicircular de escuta e improvisação. As apresentações configuram-se como jam sessions expandidas onde ritmos afro-brasileiros, matrizes indígenas, jazz, funk carioca, rap e poesia falada se sobrepõem à performance corporal da bailarina Mayara Assis.
Paralelamente, as texturas de madeira do barco servem como tela para um sistema de videomapping responsivo: imagens da Baía de Sepetiba e arquivos de memória territorial operam com a engenharia de som multicanal — as frequências capturadas ao vivo alteram e distorcem as projeções em tempo real, gerando ambiência sinestésica e imersiva.
No cotidiano expositivo, a barreira da contemplação passiva é quebrada: milhares de pessoas, de crianças a idosos, tocam a obra e deixam ali sua marca sonora. O projeto conta ainda com forte proposta de mediação pedagógica conduzida por artistas-educadores.